Fecha essa janela, vocĂȘ vai ficar doente com esse âvento encanadoâ
- Giselle
- 28 de dez. de 2020
- 3 min de leitura

Fecha essa janelaâŠ
Em âMemĂłrias PĂłstumas de BrĂĄs Cubasâ, Machado de Assis dĂĄ ciĂȘncia sobre a causa morte do personagem principal, desta maneira: â⊠BrĂĄs resolve inventar um emplasto que lhe traria fama e assinaria seu nome para a posteridade. Mas em determinado dia, de tanto pensar a respeito desse emplasto, coloca-se em frente a sua janela e recebe um vento encanado, que serĂĄ responsĂĄvel por uma pneumonia e consequente morte. BrĂĄs Cubas deixa claro que nĂŁo morrera de pneumonia, mas por causa do emplasto, que fez com que abrisse a janela e recebesse o ventoâ.
âVento encanadoâ, âfriagemâ, âtomar geladoâ, âandar com os pĂ©s descalços ou lavar a cabeça no tempo frioâ, parecem desempenhar, no imaginĂĄrio popular, um mesmo papel â contribuir para o desenvolvimento de doenças respiratĂłrias ou de vias aĂ©reas. Pavor das avĂłs!
Qual a verdade dessas correlaçÔes?
Quando as vias respiratĂłrias sĂŁo atingidas por um ar mais seco e frio ocorre diminuição da produção do muco eliminado pelas glĂąndulas das vias aĂ©reas, na qual existem enzimas e anticorpos protetores e, com o frio, o transporte do muco das vias aĂ©reas inferiores para as superiores fica comprometido e pode fazer com que as doenças respiratĂłrias aconteçam com maior facilidade â por estes motivos recomenda-se manter a respiração pelo nariz e nĂŁo pela boca, com o intuito de aquecer e filtrar o ar que entra para os pulmĂ”es.
As vias aĂ©reas funcionam melhor em temperatura constante, quando a temperatura estĂĄ baixa ocorre vasoconstrição (diminuição do calibre dos vasos sanguĂneos) podendo haver, consequentemente, menor chegada de glĂłbulos brancos (cĂ©lulas de defesa) nas ĂĄreas agredidas. Mas nĂŁo existe nenhum estudo que comprove a relação entre as oscilaçÔes de temperatura no ambiente e a baixa das defesas imunolĂłgicas do organismo.
Existem tambĂ©m cĂlios que revestem as vias aĂ©reas e que, ao se movimentarem, trabalham na defesa do sistema respiratĂłrio e expulsam agentes indesejados e evitam que cheguem aos pulmĂ”es. Quando a temperatura diminui, estes cĂlios movimentam-se menos e isso pode facilitar a entrada de vĂrus, fungos e bactĂ©rias.
Entre as crianças, as doenças respiratórias são mais frequentes nos meses de março a julho e em setembro/outubro. O clima seco, a baixa umidade do ar, o ar mais frio são alguns dos fatores implicados nessa sazonalidade, agravando as crises de patologias crÎnicas como a asma e a rinite.
Quando falamos em saĂșde, existe sempre o fator individual, que Ă© caracterĂstico de cada pessoa e engloba caracterĂsticas de moradia, genĂ©ticas, climĂĄticas, culturais, alimentares e pode fazer com que um desses fatores mencionados, nessa pessoa, exerça alguma influĂȘncia significativa.
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Relator:
Fernando Manuel Freitas de Oliveira
Pediatra, Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP.
Membro da ComissĂŁo de Ensino e Pesquisa da Sociedade de Pediatria de SĂŁo Paulo.
Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de SĂŁo Paulo.
Alfonso Eduardo Alvarez
Presidente do Departamento CientĂfico de Pneumologia da Sociedade de Pediatria de SĂŁo Paulo
Tudo o que foi escrito acima estĂĄ perfeito, vou apenas complementar com 3 itens:
O ar seco Ă© agressivo para as vias aĂ©reas. Nos meses de outono/inverno, na regiĂŁo sudeste do Brasil, o ar fica extremamente seco, chegando Ă s vezes a 15% de umidade ou menos, sendo que o ideal Ă© que fique em torno de 65%. Por esse motivo Ă© muito importante colocar um umidificador no quarto da criança, pelo menos no perĂodo da noite.
Um dos principais motivos do aumento das infecçÔes respiratĂłrias nos meses frios Ă© o fato das pessoas ficarem aglomeradas em ambientes fechados, o que facilita muito a propagação de vĂrus e bactĂ©rias. Desta forma, muitas vezes o vilĂŁo nĂŁo Ă© o frio em si, mas o fato das pessoas ficarem em ambientes fechados, favorecendo a transmissĂŁo de infecçÔes.
Vale lembrar tambĂ©m que as mudanças bruscas de temperaturas, tĂpicas da regiĂŁo sul e sudeste do Brasil nos meses de outono/inverno, sĂŁo um forte desencadeante de crises de asma e rinite alĂ©rgica. Ou seja, nĂŁo Ă© o frio em si que desencadeia as crises, mas as mudanças bruscas de temperaturas.
